Homenagem do Verso da Prosa ao amigo e professor Bruno Curcino

O professor Bruno Curcino participou de muitas edições do Verso da Prosa. Seu pensamento claro, sua erudição e generosidade transparecem em algumas das falas que selecionamos para esta homenagem.

Pesquisa, edição, texto e locução: Leobaldo Prado.

Nota: uma celebração em forma de Jazz para o amigo que tanto amou esse ritmo feito de resistência e poesia assim como ele próprio era feito. “A love supreme” – 1964 – John Coltrane (com  McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones).

Sobre um amor supremo

Fiquei muito tempo pensando no que escrever para meu amigo que se foi tão cedo. Concluí, não sem alguma dúvida, que 45 literários anos só poderiam ser vistos sob a perspectiva do culto máximo desse professor, filho, irmão, amigo, companheiro, namorado e tantas outras coisas que não cabem nas palavras: a Literatura. Personagem errático e fabuloso dentro de um conto do Cervantes. Sensível como um Samsa. Agreste como um Fabiano nas agruras de uma vida de securas. Combativo como um apanhador num campo vasto de centeio. Menino como um verso do Manoel de Barros no sítio do Lobato. Poético como um parágrafo de Clarice ou como um enigma insolúvel de Drummond. Rosa do povo vivendo o sentimento do mundo. Foi Quintana e foi Bilac nas suas simplicidades herméticas. Foi um Nassar navegando os Cânticos mais profundos da sua própria alma. Um Pound antenado na poesia do mundo. Um Brecht esperançoso por uma mudança que ainda não veio. Um Policarpo com o dedo em riste para um Brasil de sonho e delírio. Um contorcionista sentado numa cadeira como um pícaro do Suassuna. Um ouvido agudo para o Jazz cortante narrado por Cortázar. Uma pessoa de profundidades insondáveis, só compreendido mesmo pela Pessoa que se quebrou em muitos, que foi Bernardo, Álvaro, Ricardo… Para entendê-lo, talvez, só o voo de um Corvo chamado Poe. Enfim, foi um dândi sem sê-lo, foi dissimuladamente Wilde e tropicalmente Saramago. Byron de Azevedo das madrugadas desassossegadas. Borges e Coralina dos dias. Whitman das liberdades. Olhou ternamente – como Raquel, Carolina e João Cabral –  o destino dos miseráveis. Perdeu-se casmurro na estrada de Kerouac. Flanou à brasileira como Baudelaire. Bradou feito um Leminski caipira dos Matos. Foi por vezes leve como Cecília. Foi Bandeira do velho Graça. Foi Amado e amou a vida e foi espancado por ela como João do Rio, Lima Barreto e João Antônio, foi flor e foi belo, foi cometa e rocha. Foi paradoxalmente vivo na morte. Foi tragicomicamente muitos. Macunaimou. Vida longa ao legado etéreo e às memórias póstumas de Bruno Curcino. Vida longa à Literatura. Até o último suspiro transformado em prosa e verso.

Com admiração, respeito e amizade,

Estéfani Martins por Verso da Prosa.

P.S.: caro irmão, você ainda vai tornar-se Literatura.

4 comments on “Homenagem do Verso da Prosa ao amigo e professor Bruno CurcinoAdd yours →

  1. Emocionante e sincera sua homenagem póstuma. Bruno era auma simbiose de emoção e sinceridade, meu igualmente amigo Stefani. Bruno foi literatura, hoje é uma literatura encantada e pra nós, um “imortal”

  2. Homenagem de “arrepiar”. Por certo, ela demonstra quem nosso queridíssimo Bruno foi e ainda é para nós. Parabéns Stefani por escolher compartilhar tamanha profundidade! Aproveito para comunicar que aqui, na UFTM, em Uberaba, faremos uma homenagem, em forma de memorial, no dia 27 de março, à noite. Espero que possa estar presente! Será uma honra!

  3. Sentirei falta das falas diversas e muitas vezes contrárias a de muitos professores,da procura que ele tinha por citar outros nomes importantes da Literatura para elucidar para todos os ouvintes a propriedade com a qual expressava as suas falas e do seu pensamento que complementava a diversidade de ideias e opiniões desse podcast.
    Eu ,como aluna, tive o privilégio de ter ouvido e de acompanhar esse podcast com a presença de professores excelentes e deste que agora se foi, mas que teve seus ensinamentos eternizados em suas falas gravadas aqui.
    As falas do Bruno farão falta.

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